“Os sonhos de quem estamos sonhando?” | Exposição individual de Yiftah Peled

A exposição “Os sonhos de quem estamos sonhando?” na Galeria Ybakatu apresenta trabalhos em diferentes suportes, objetos, vídeos, fotografias e proposições participativas. As obras levantam questões sociais sobre a formação da identidade e o papel das ficções na conturbada contemporaneidade brasileira, utilizando poéticas que mobilizam “não mais a verdade, mas a habilidade de apelar para as emoções humanas e de alinhar as afirmações para atender ou mesmo desenvolver ansiedades coletivas”, como discute a socióloga Margaret Abraham sobre os jogos políticos. O artista reside atualmente no Espírito Santo, estado atingido pelo crime ambiental que destruiu o Rio Doce, e algumas de suas obras tratam das questões associadas aos impactos da mineração “nas arenas vale tudo”, onde imperam impulsos econômicos desumanizados.

Yiftah Peled atua no circuito das Artes Visuais desde 1991 e apresenta sua terceira mostra individual na Galeria Ybakatu. Com participações significativas na cena brasileira de artes visuais como na Bienal de São Paulo, nos Panoramas de Arte Brasileira, no Projeto Parede MAM/SP e na Mostra MAM/SP 70 anos, neste ano o artista participou da Bienal de Arquitetura de São Paulo e de uma coletiva no Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia (MUBE/SP), com um trabalho que denuncia o crime ambiental do Rio Doce que atingiu o estado do Espírito Santo, onde vive atualmente. Peled coordena o espaço autônomo Contemporão, em São Paulo, que promove projetos artísticos transdisciplinares e interfaces entre as práticas de performance, participação e performatividade. Também atua como professor e pesquisador no Curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Espírito Santo onde desenvolve projetos artísticos e curatoriais junto a dois grupo de pesquisa: Práticas e Processos da Performance (3P) e Diálogos entre Sociologia e Arte (DISSOA).

Yiftah Peled
Os Sonhos, 2018
Fotografia impressão fine art, acrílico e base de madeira pintada
15 x 15 x 3 cm

Caetano Veloso, um dos nossos maiores artistas, já cantou: “aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína”. A consideração, poetizada na canção “Fora de ordem”, é na verdade uma citação de Claude Lévi-Strauss, que aqui esteve e depois escreveu o livro “Tristes Trópicos”. Essa ideia me parece um bom ponto de partida para falar da produção artística do israelense Yiftah Peled (Tivon, 1964). Radicado no Brasil desde 1991, ele apresenta uma acurada perspectiva crítica e artística para encarar a complexa realidade local – um contexto de modernidade periférica e inacabada em que o novo e a ruína se atravessam e a destruição e a reinvenção são faces de uma mesma moeda. Tal percepção é dada de cara, por exemplo, com o filme Monumentos involuntários (2012), trabalho que sintetiza a condição urbana de um lugar como Vitória (ES).

Se na virada dos anos 1980 para os anos 1990 algumas coisas pareciam estar fora de uma dada ordem mundial capitalista, como sugeriu Veloso, hoje a desordem civilizacional impera já chegou e o antropoceno é realidade amarga. Tal discussão plantada nos anos 1990 curiosamente coincide com a chegada do artista ao país, tendo ele vivenciado as transformações ambientais e territoriais do Brasil das últimas três décadas. Para além da denúncia, o que Yiftah propõe, de maneira por vezes irônica, é a requalificação do debate público por meio de uma convocação do outro, do interlocutor, para uma prática participativa, engajada e lúdica. 

Na série de trabalhos intitulada “Turismo definitivo”, o artista sempre parte de algo que é predatório e de clara dependência econômica para falar da necessidade de um engajamento coletivo na construção de um imaginário urbano próprio, tendo em vista situações, monumentos ou paisagens que ele quer nos fazer rememorar ou ressignificar. O trabalho “Ybakatu / Nove naves” (2019), que deve ser lido também como um jogo, convoca o visitante da galeria a tomar consciência ambiental e de fato pensar plasticamente os significados do “olho de Niemeyer”, ou da nave que parece ter pousado na cidade de Curitiba. Falo aqui do Museu Oscar Niemeyer, símbolo arquitetônico da metrópole regional e obra tardia do mais longevo arquiteto modernista.

No trabalho de Peled, a questão ambiental é percebida de forma íntegra – tanto como tomada de consciência espacial quanto de uma preocupação com a preservação e o usufruto consciente do meio ambiente. Cada obra, à sua maneira, carrega uma força de manutenção da memória e uma vontade positiva de requalificação do espaço físico e social: a obra em forma de múltiplo chamada “Floresta” (2017), feito em parceria com o grupo Dissoa, o objeto escultórico a “Arena Vale Tudo” (2015), a imagem inventada de “Deslocamentos” (2019), entre outros.

Entre tantos, se existe um artista atuante no Brasil que pode ter sua produção enquadrada enquanto poética ambiental, é Yiftah Peled. Essa caracterização já foi por demais estigmatizada quando nos referimos à arte local, mas ganha outra potência de sentido ao ser identificada na obra dele. Por exemplo, em “Turismo definitivo / Rio” (2015), Peled dá escala corporal à figura do Cristo Redentor – aquele que parece vigiar a Baía de Guanabara no Rio de Janeiro – e o oferece ao abraço participativo do público. Essa inversão escalar é o gesto inicial do trabalho, que só se realiza em completude pela participação do outro.

Os anos de Peled no país, dedicados à atividade artística, ao ensino e à pesquisa em artes nos mais variados contextos, garantem a ele um lastro de conhecimento, de afetos construídos e de entendimento territorial e cultural, sempre margeados por sua condição estrangeira. Por isso, o artista consegue transitar entre o dentro e o fora, e vice-versa, impondo uma produção intimamente ligada às mais variadas paisagens brasileiras, vide seus anos em Curitiba (PR), Florianópolis (SC), Vitória (ES) e São Paulo (SP).

As imagens criadas por ele e os resíduos coletados e transformados em arte se espalham pela exposição e dão conta, indiretamente, dessa vivência local. O encontro fortuito com as fotografias manipuladas, geralmente alocadas de forma alheia ao jeito convencional de expor, convocam no espectador uma atenção distinta do simples ato de olhar. O artista nos coloca em estado de alerta. Outro exemplo relevante são as caixas de acrílico contendo os resquícios da raspagem do mural dedicado a Marielle Franco – assassinada pela milícia do Rio de Janeiro com a conivência do poder público –, que havia sido destruído pela prefeitura de São Paulo. Esses objetos, aos modos de um relicário, ganham o nome de “Urnas/escadaria” (2018).

Aliás, o estranhamento diante dos lugares em que morou, ao mesmo tempo em que ilustra um certo estrangeirismo, faz o artista observar também o ambiente a seu redor sem o fardo histórico do pertencimento, mas com a vontade genuína de ser acolhido ou, melhor, de conseguir fazer da ruína uma nova forma de construção. Com sua produção artística em perspectiva, apesar de por vezes tratar de um realismo fantasmagórico, Peled nos convoca a pensar no que é palpável e naquilo que pode nos implicar de imediato, chamando todos a uma nova responsabilidade ambiental, social e estética. Por isso, a pergunta-provocação faz sentido e ganha estado de emergência: os sonhos de quem estamos sonhando?

Diego Matos, setembro de 2019

Yiftah Peled
Fotomontagem, 2019
Impressão fine art
100 x 43 cm

Yiftah Peled
Arena Vale Tudo, 2015
Estrutura de acrílico com pó de minério de ferro
30 x 30 x 12 cm

Yiftah Peled
Deslocamentos, 2019
Fotomontagem, minério de ferro e catalogo do Museu da Vale
Impressão fine art
40 x 60 cm

Yiftah Peled
Utopia, 2019
Impressão fine art
20,5 x 15,5 cm

Yiftah Peled
Justin in your eyes, 2016
Impressão fine art
13,5 x 10,5 cm

Yiftah Peled
Múltiplo Floresta
Múltiplo impresso com perfurações
Produção do grupo DISSOA

Yiftah Peled
Urnas / Escadaria, 2018
3 caixas de acrílico, fragmentos de cartazes recolhidos depois da ação da Prefeitura de São Paulo
8 x 11 x 17, 5 cm; 11 x 11 x 20, 5 cm; e 11 x 14 x 24 cm

Yiftah Peled
Turismo Definitivo, 2012. Obra participativa
Madeira pintada com sistema de cordas
200 x 250 x 3 cm

Yiftah Peled
Turismo Definitivo, 2019. Jogo Naves
Dentro do espaço expositivo, incluindo banheiros, identifique nove naves amarelas impressas. Marque as posições dos elementos invasores nessas plantas baixas da galeria.

De 19 de setembro a 18 de outubro de 2019
Visitas agendadas de segunda a sexta, das 10h às 12h, e das 13h30 às 17h

Galeria Ybakatu
Rua Francisco Rocha, 62 Lj. 06 Batel – Curitiba/PR
Tel: +55 41 32644752
www.ybakatu.com

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